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Como a alta do preço afetará produtores no mundo inteiro, a franco-venezuelana Nathalie Vanegas acredita que se manterá uma competitividade natural entre países e regiões do globo. Especialista em exportações de frutas brasileiras para a Europa, Oriente Médio, Estados Unidos e Ásia Central, presta assessoria a produtores e compradores internacionais pela Ammana Native Brazilian Fruit Export, uma rede consolidada que fornece alimentos para grandes varejistas em 10 países do mundo. Atualmente, desenvolve negócios para as redes Carrefour, Walmart, Rede Brasil de Supermercados, Benassi, De Marchi, Carrefour Qatar, entre outros.

Nathalie indica que observar que o aumento de valores nos fretes internacionais não significa prejuízo ao produtor. “Pode ser que o valor final do produto devido ao aumento fique mais caro, mas a alta dos preços de frete, por ser mundial, vai se repercutir nos preços de todos os produtos de qualquer origem, por isso não terá produtor mais favorecido do que outro”. Acompanhe a entrevista abaixo:

Como analisa o cenário geral atual do setor de frutas tropicais brasileiras, diante da desaceleração econômica, ocasionada pelo surto de Coronavírus pelo mundo?

Entre o início de fevereiro e a terceira semana de março notamos uma redução das exportações de frutas tropicais, em decorrência das medidas de confinamento adotadas pelos países na Europa. Só agora as demandas de hortifrúti brasileiros estão retomando aos poucos. Mas independentemente da pandemia o setor alimentício volta a se aquecer mais rápido do que outros setores, visto que as pessoas precisam se alimentar. A produção de alimentos em geral e as exportações sentem reflexos, mas não param.

Para o comprador internacional é necessária uma adaptação a esse novo ritmo, para que consiga compreender o comportamento do consumidor daqui em diante, que está respeitando o ritmo do confinamento dos europeus em casa. Hoje, as medidas restritivas estão focadas na redução da movimentação de pessoas – e faz-se necessário ainda maior circulação de mercadorias durante essa crise global de saúde.

O que mudou nas exportações de frutas do Brasil, para países da Europa, Oriente Médio e Ásia Central, onde a AMMANA atua comercialmente?

Inicialmente, houve uma corrida nos países para o consumo e armazenamento de frutas. Em seguida, veio uma retração da crise, tendo como reflexo a opção dos consumidores internacionais em estocar alimentos não-perecíveis. Agora os pedidos e a procura por frutas brasileiras estão voltando a normalidade, aos poucos. O ponto de atenção para quem atua com comércio exterior está na logística, já que houve cancelamentos de rotas marítimas e atrasos em voos focados em transporte internacional.

Quais são os principais pontos negativos para produtores que querem exportar frutas, durante esse cenário de caos global?

As medidas restritivas durante esse período de quarentena afetam, com certeza, os serviços logísticos. Posso citar três pontos centrais e que merecem atenção à cadeia produtiva de frutas tropicais:

  • Paralização e movimentação reduzida nos portos – Mesmo tendo a mercadoria pronta para exportar, a falta de mão de obra ocasionada pelo confinamento dos trabalhadores tem atrasado toda a movimentação logística nos portos que despacham exportação em geral. Prejudica-se, também, a obtenção dos certificados fitossanitários e os carregamentos dos containers nos navios cargueiros. As exportações peruanas, por exemplo, não estão chegando no Brasil, pois estão paralisadas por causa das medidas mais drásticas de confinamento, adotadas pelo governo peruano;
  • Mudança do consumo para produtos de maior tempo de duração ou prioridade de produtos “com propriedade medicinal” – Observamos uma maior demanda por produtos de “longa vida” nas prateleiras internacionais, tais como batata doce e, também, a alta demanda por gengibre e cúrcuma – já que ambos têm “propriedades medicinais”; e
  • Dificuldades para trabalhar de forma programada – Trabalhar com cronograma permite garantir uma constância nos pedidos e entregas dos volumes a serem exportados – com um preço fixo o ano todo, e que não segue flutuações cambiais. Nesse cenário atual, não é possível (ainda) prever o comportamento dos consumidores internacionais e nem antecipar a evolução da demanda. Porém, produtores de frutas e profissionais de comércio exterior podem trabalhar com ofertas pontuais, utilizando como base os preços da semana.

E quais seriam os principais pontos positivos para as exportações brasileiras de frutas, nesse cenário de caos global?

Há algumas vantagens comerciais durante a quarentena global, que colaboram com o “equilíbrio” aos bolsos de quem produz no Brasil. Cito três pontos centrais que também merecem a atenção à cadeia produtiva de frutas:

  • A alta do dólar gera um câmbio favorável e vantagens às exportações do Brasil – Indicamos aos produtores de frutas tropicais, no entanto, que tomem cuidado com a qualidade e vendam para o mercado internacional somente produtos de qualidade, a fim de atender as exigências fitossanitárias impostas pelos países de destino dos produtos brasileiros;
  • O bloqueio aos produtos agropecuários de origem chinesa realocou a demanda de certos produtos aqui do Brasil E outros países de América Latina, tal como o Peru, por exemplo. Notamos um aumentou da demanda de gengibre na França, Inglaterra, Espanha, Itália e outros países do bloco europeu. Criou-se, assim, uma vantagem competitiva e oportunidades para produtos do Brasil, também; e
  • Mais oportunidades aos produtores de frutas brasileiras e abertura de novos mercados – Nesses tempos de caos, a falta de produtos em determinada região pode gerar novos contatos (networking) entre compradores e fornecedores, abrindo oportunidades para trabalhar com novos mercados futuros.

Os cenários mudam com rapidez. As pessoas não podem transpor fronteiras, em muitos países, mas as frutas vão continuar a chegar para quem precisa comer. Essa é uma das poucas certezas que temos, diante de um cenário de caos, contra esse vírus que paralisou a economia global, e que agora começa a se adequar para manter as exportações ativas no mundo inteiro.

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